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19ª MOSTRA REGIONAL DE PRÁTICAS EM PSICOLOGIA DO RIO DE JANEIRO: CIRCULARIDADE, RESISTÊNCIA ANTIMANICOMIAL E ÉTICA DIGITAL EM DEBATE
Data de Publicação: 21 de setembro de 2026
Abertura do maior evento da Psicologia fluminense reúne recorde de público e reafirma o compromisso social da profissão frente aos desafios contemporâneos.
Durante os dias 16, 17 e 18 de julho, o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) promoveu a 19ª Mostra Regional de Práticas em Psicologia, sob o tema central “Psicologia na Circularidade: Saberes que Transformam, Práticas que Conectam”. O evento, realizado no SuperCampus Maracanã da Universidade Estácio de Sá, na Zona Norte da capital, consolidou-se como um marco histórico de mobilização política, científica e profissional da categoria no estado.
Esta edição superou marcas históricas ao registrar 3.400 inscritos oriundos de 60 municípios fluminenses, representando mais da metade das cidades do Rio de Janeiro. Ao longo de três dias intensos de atividades, a programação contou com 640 trabalhos apresentados, distribuídos em 115 sessões, além de 16 rodas de conversa e seis mesas temáticas, viabilizadas pela dedicação de 76 monitores selecionados. O evento contou ainda com a participação de delegações de Conselhos Regionais de todo o país, evidenciando o fortalecimento e a articulação nacional da Psicologia brasileira.
Mesa Abertura Institucional: Memória, Democracia e Defesa da Profissão
A mesa de abertura institucional reuniu representantes do Conselho Regional, do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e da instituição de ensino anfitriã, estabelecendo os pilares conceituais, éticos e políticos que guiaram as discussões. A mesade abertura foi composta por Cristiane de Carvalho Guimarães (CRP 05/18462), coordenadora do Curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá Maracanã; Viviane Siqueira Martins (CRP 05/32170), conselheira presidenta do CRP-RJ; Cláudia Simões Carvalho (CRP 05/30182), conselheira tesoureira do CFP; e Jorge Antonio Tavares Peixoto (CRP 05/44215), conselheiro tesoureiro do CRP-RJ e coordenador geral da Comissão Organizadora do evento.
Dando início ao evento, a coordenadora Cristiane de Carvalho Guimarães expressou a satisfação da instituição de ensino em sediar o evento pela terceira vez, sublinhando a potência das discussões focadas na inclusão e na diversidade observadas nas salas de apresentação de trabalhos. Para a coordenadora, a universidade desempenha um papel essencial ao atuar como um polo onde o conhecimento circula, reforçando que a prática profissional se consolida por meio da troca viva e do impacto social concreto, indo muito além dos limites da sala de aula e da teoria acadêmica tradicional.
Representando o CFP, a conselheira Cláudia Simões Carvalho celebrou a escolha do tema central da circularidade, destacando que o conhecimento não é linear, mas sim um movimento constante que exige o respeito à escuta e à preservação da memória para a construção de uma Psicologia pluriversal, acolhedora e alinhada aos Direitos Humanos. Em sua intervenção, Cláudia destacou o desenvolvimento de uma importante ferramenta institucional: o Sistema de Análise de Compatibilidade de Práticas com a Psicologia (SAP - Sistema Aluízio Lopes de Brito), instituído pela Resolução CFP nº 18/2022. O sistema funciona como um canal democrático para analisar o rigor científico e a conformidade ética de diversas práticas e demandas sociais com o exercício profissional, garantindo segurança tanto para a categoria quanto para a sociedade civil.
A conselheira presidenta do CRP-RJ, Viviane Siqueira Martins, resgatou o percurso histórico das Mostras de Práticas, que tiveram início em 2003, em São Paulo, promovidas pelo CFP em um contexto de efervescência democrática nacional. Viviane relembrou que a Mostra nasceu sob o lema do compromisso social, marcando uma transição ética na profissão que buscava superar os modelos elitistas e puramente diagnósticos de atuação para se inserir ativamente nas políticas públicas brasileiras. No estado do Rio de Janeiro, as edições locais vêm ocorrendo de forma ininterrupta desde 2007. Ao refletir sobre a circularidade, a presidenta defendeu a valorização não apenas do conhecimento acadêmico clássico, mas também das matrizes de saberes tradicionais presentes nos territórios, preservados por populações historicamente marginalizadas como formas de resistência e cuidado em meio aos processos históricos de violência colonial.
Finalizando as falas institucionais, o coordenador da comissão organizadora, Jorge Antonio Tavares Peixoto, apresentou os dados oficiais do evento e registrou com entusiasmo a expressiva presença de delegações de Conselhos Regionais de Psicologia de diversos estados da federação, o que reforça o compromisso coletivo com o fortalecimento ético e político da profissão diante do cenário de profundas desigualdades e demandas crescentes no estado do Rio de Janeiro.
A Psicologia na Circularidade: O Lançamento Histórico da Referência Técnica para a Atuação com Povos Quilombolas
Após o encerramento da mesa de abertura institucional, o coordenador do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP), Lucas Gabriel, abriu a mesa A Psicologia na Circularidade celebrando o marco de 20 anos de existência da Rede Crepop no país. Lucas detalhou que as referências técnicas, nascidas em 2006 por deliberação do V Congresso Nacional de Psicologia, cumprem o papel fundamental de subsidiar a atuação ética e técnica da categoria no âmbito das políticas públicas, retirando a profissão do isolamento do consultório e inserindo-a diretamente nos territórios de cuidado. Com 29 referências publicadas e nove em processo de formulação ou atualização, o coordenador convidou as(os) profissionais a participarem ativamente das consultas públicas abertas no site do CFP e destacou o lançamento histórico da "Referência Técnica para Atuação de Psicólogas junto aos Povos Quilombolas". Ele ressaltou que a elaboração de cada documento segue um rigoroso ciclo de pesquisa, escuta e validação pela categoria, garantindo que o material final responda com exatidão às demandas específicas do cotidiano profissional.
A mesa de temática subsequente, mediada pela presidenta Viviane Siqueira Martins, contou com a participação de William Penna - Atoloji (CRP 05/54396), professor de Psicologia da UFF de Rio das Ostras e Kambondo do Kupapa Unsaba - Bate Folha do Rio de Janeiro, e de Alline Aparecida Pereira (CRP 05/69739), psicóloga, professora universitária e pós-doutoranda em Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social da UERJ.
Em sua fala, o professor William Penna demarcou inicialmente seu pertencimento religioso como ogan de candomblé da nação Angola, sustentando que sua relação com o terreiro orienta sua atuação acadêmica e profissional de forma indissociável. William asseverou que o candomblé no Brasil atua historicamente como um polo preservador e articulador de saberes ancestrais africanos e indígenas, de modo que limitá-lo à dimensão estritamente religiosa constitui uma redução de caráter colonial. Ao analisar a nova referência técnica, elogiou o rigor ético-científico do material e recorreu ao pensamento da historiadora Beatriz Nascimento para redefinir o conceito de quilombo. Conforme pontuou, Beatriz Nascimento rompeu com a visão colonial que reduzia o quilombo a um mero local físico de refúgio de pessoas escravizadas em fuga, demonstrando que a instituição representa, na verdade, uma transplantação de um sistema civilizatório e comunitário de organização de vida e resistência cultural africana no Brasil, estruturada em forte aliança e compartilhamento de tecnologias de sobrevivência com os povos originários. William enfatizou que a Psicologia precisa enfrentar o desafio da descolonização do seu próprio saber, recusando práticas universalistas e salvacionistas para se dispor a um diálogo horizontal pautado no "pensar nagô" proposto por Muniz Sodré, um sistema de pensamento integrativo que recusa as cisões ocidentais entre mente e corpo, teoria e prática, ou espiritual e material.
A psicóloga Alline Aparecida Pereira abriu sua exposição solicitando licença aos presentes, valorizando a oralidade como um pilar civilizatório afro-indígena. Alline buscou o pensamento do mestre quilombola Nego Bispo para ilustrar que a vida e a ancestralidade ocorrem em circularidade, um movimento contínuo onde "a roda não gira para repetir, mas para aprofundar". Ela compartilhou sua trajetória de pesquisa doutoral voltada para a contracolonização da Psicologia e as "escrevivências" de mulheres negras, conceito formulado por Conceição Evaristo, no interior das políticas de saúde e assistência social. Ao analisar o novo documento do Crepop, Alline relatou a emoção de reencontrar ali as bases de sua própria atuação nos CRAS e CAPS da Baixada Fluminense, locais onde compreendeu a importância de atuar como "companheira de caminhada" das usuárias que reeditavam as políticas públicas em seu próprio cotidiano. A docente demostrou que as comunidades tradicionais estruturaram tecnologias coletivas de afeto, solidariedade e cuidado comunitário muito antes da instauração formal do aparato estatal. Ela concluiu que o fazer ético exige desaprender o viés colonizador da profissão para reconhecer e respeitar as cosmopercepções contracoloniais dos territórios, rejeitando a individualização e os diagnósticos patologizantes impostos pela modernidade ocidental.
Provocando a mesa de debates, a mediadora Viviane Siqueira Martins propôs uma reflexão sobre como identificar essas tecnologias tradicionais de cuidado nas periferias urbanas e favelas do Rio de Janeiro. Viviane destacou o período agudo da pandemia de Covid-19, no qual redes de solidariedade comunitária nas favelas se articularam para prover cuidados coletivos de forma muito mais célere e eficaz que o próprio poder público. William Penna e Alline Pereira endossaram a reflexão apontando, com base em Beatriz Nascimento, que as favelas representam a reatualização contemporânea do quilombo. Os debatedores citaram a ativista Gisele Martins para contrastar a diretriz estatal higienista de "lavar as mãos" na pandemia com a resposta ancestral da favela de "compartilhar a água", evidenciando a potência do ethos coletivo de sobrevivência nesses territórios.
Assista ao conteúdo na íntegra acessando https://www.youtube.com/live/FZ6ziqnbV_s?si=tOW5PTm22mkpSVyt
Encruzilhadas da Psicologia na Política de Drogas: O Enfrentamento Técnico e Político às Comunidades Terapêuticas
A primeira mesa temática do evento discutiu o crescimento desordenado e o financiamento público das chamadas Comunidades Terapêuticas (CTs), denunciando o caráter asilar dessas instituições e as violações sistemáticas de direitos humanos que ocorrem em seu interior. Com a mediação de Fernanda Bernardo (CRP 05/65099), especialista em Promoção da Saúde e Desenvolvimento Social e militante antirracista, o debate reuniu Lucas Moura Santos Silva (CRP 05/75215), Alexander Ramalho, Thessa Guimarães (CRP 01/16119) e Beatriz Monteiro Barbosa (CRP 05/85300).
O psicólogo e pesquisador Lucas Moura Santos Silva caracterizou as Comunidades Terapêuticas como dispositivos que operam na reatualização do modelo manicomial, incorporando lógicas racistas, LGBTfóbicas e misóginas que produzem violências de caráter interseccional. Apoiando-se nos dados do Censo Psicossocial dos Usuários dos Serviços de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro, realizado em parceria pela UFRJ e pela Secretaria Estadual de Saúde, Lucas revelou que o censo mapeou 26 CTs ativas correlacionadas a CAPS no estado até dezembro de 2023. Esse contingente equivalia a mais de 70% da rede pública de CAPS AD (álcool e outras drogas) existente à época, que contava com apenas 36 serviços habilitados. O palestrante citou ainda um mapeamento coordenado pela professora Raquel Gouveia que identificou cerca de 199 CTs em funcionamento no estado em 2024, superando numericamente o total de 187 CAPS em toda a rede de atenção psicossocial fluminense.
Lucas denunciou o fluxo milionário de recursos públicos que financia o modelo das CTs nas esferas federal, estadual e municipal. Ele destacou que a prefeitura do Rio de Janeiro mantém um edital contínuo de aproximadamente R$ 1,9 milhão para o custeio de 600 vagas nessas instituições, além do direcionamento de 43 emendas parlamentares estaduais, entre 2018 e 2022, destinadas a CTs no estado, com repasses mínimos individuais de R$ 100 mil. Lucas asseverou que essas instituições se legitimam ao ocupar as lacunas deixadas pela precarização da RAPS no território fluminense, especialmente no que tange a serviços de acolhimento noturno e funcionamento 24 horas. Por fim, trouxe dados alarmantes de um relatório nacional do laboratório NAVES da UFMG, encomendado pelo Ministério do Desenvolvimento Social: dentre as cerca de 500 CTs analisadas no país, identificou-se a atuação de 5.200 trabalhadores, dos quais 1.600 possuíam nível superior; deste subgrupo, mais de 30% (545 profissionais) eram psicólogas(os), o que torna a Psicologia a categoria técnica mais disputada para conferir legitimidade social e justificar a manutenção desse modelo institucional.
O diretor da Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME) e pesquisador do LAPS/ENSP/Fiocruz, Alexander Ramalho, definiu de forma categórica as Comunidades Terapêuticas como asilos contemporâneos que contrariam os ditames da Lei de Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216) e as diretrizes da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Alexander asseverou que o modelo das CTs baseia-se historicamente no isolamento social dos usuários, no trabalho forçado não remunerado (sob a denominação de laboreterapia), na imposição de dogmas religiosos e na privação arbitrária de liberdade sem qualquer sustentação clínica. Ele resgatou as fartas evidências de violações de direitos humanos reunidas em relatórios oficiais de inspeção nacional do CFP, do Conselho Nacional de Direitos Humanos e do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, bem como auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) de 2022 e 2023, que apontaram a ocorrência de repasses financeiros públicos por "vagas ociosas", desvio de finalidade e grave ausência de transparência.
Alexander expôs o cenário de tensionamento político nacional, criticando o fato de que, a despeito de o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) rejeitar formalmente as CTs em sua estrutura regulatória, essas instituições sobrevivem por meio de articulações de excepcionalidade política que viabilizam o financiamento interministerial. Ele denunciou a tentativa de criminalização e assédio jurídico movida por órgãos estatais e corporativos contra militantes antimanicomiais, como os processos de responsabilização civil pessoal direcionados à presidenta da ABRASME, Ana Paula Gurjó, e a conselheiros no estado do Pará. Diante desse cenário, o pesquisador conclamou a categoria profissional a recorrer à judicialização estratégica das violações cometidas, acionando a Corte Interamericana de Direitos Humanos e retomando a mobilização popular de base territorial contra as práticas asilares.
A psicóloga Beatriz Monteiro Barbosa, trazendo sua experiência clínica no PROJAD (UFRJ), abordou as barreiras de acesso e as restrições de mobilidade urbana impostas pela violência armada nas periferias da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense, que incidem diretamente sobre a subjetividade de usuários e trabalhadores. Beatriz argumentou que as Comunidades Terapêuticas exploram a fragilidade da rede pública de saúde mental para se consolidarem no território como uma alternativa única de acolhimento para famílias em situação de vulnerabilidade, valendo-se de falsas promessas de inserção social pelo trabalho. Para analisar o território, a psicóloga recorreu ao conceito do geógrafo Milton Santos, definindo-o como um espaço dinâmico, circular e "rigorosamente habitado". Ela defendeu que o profissional de saúde mental deve integrar-se ativamente ao território, conhecendo as redes culturais e comunitárias preexistentes para tecer redes de cuidado verdadeiramente vivas e acolhedoras. Beatriz teceu críticas contundentes à relação de "mão única" estabelecida pelas CTs com a rede de saúde mental, assinalando que, após o encaminhamento de um usuário, os CAPS frequentemente perdem a rastreabilidade e não obtêm qualquer retorno sobre a sua evolução clínica ou sobre as reais condições de sua permanência na instituição.
A vice-presidenta do CFP, Thessa Guimarães, compartilhou o profundo incômodo decorrente de sua trajetória de fiscalização de dezenas dessas instituições durante seu mandato na presidência do CRP-DF, comparando as fazendas de confinamento a "senzalas contemporâneas", estruturadas a partir da exploração do trabalho não remunerado de homens socialmente vulnerabilizados. Thessa destacou que inspeções recentes realizadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em 2025 apontaram a existência de graves irregularidades e fraudes trabalhistas em absolutamente 100% das 40 CTs inspecionadas no país, o que corrobora o caráter exploratório dessas entidades. Diante do vasto acúmulo de denúncias, a conselheira provocou a Psicologia a transitar do momento histórico de produção de evidências para o de incidência política, jurídica e econômica efetiva, focada na cessação de financiamento público a essas instituições.
Nesse sentido, Thessa revelou que um Grupo de Trabalho no âmbito do CFP está encarregado de propor uma normativa ética para a categoria. No entanto, compreendendo que a presença técnica do psicólogo tem sido comumente instrumentalizada de má-fé para conferir um verniz de legitimidade às CTs, o GT direcionou a proposta para a redação de uma resolução que trate das condições institucionais mínimas indispensáveis para o exercício ético da Psicologia. A vice-presidenta enfatizou que se a instituição impossibilita a guarda de sigilo profissional, impõe preceitos religiosos, tolera o trabalho forçado ou comete torturas, as condições para o fazer ético da Psicologia estão tecnicamente inviabilizadas, cabendo a vedação da atuação profissional nesses locais. Thessa caracterizou as CTs como o braço corporativo, financeiro e ideológico de um projeto punitivo de segurança pública articulado pela extrema-direita, voltado para o encarceramento de corpos pobres e negros, funcionando como uma antesala do sistema carcerário brasileiro.
Assista ao conteúdo na íntegra acessando https://www.youtube.com/live/WX0VSGMaI74?si=-X-AY2e4ai_x5UTp
Psicologia e Inteligência Artificial: Desafios Éticos, Letramento Tecnológico e Precarização do Trabalho
A segunda mesa temática do evento discutiu as aceleradas transformações promovidas pela Inteligência Artificial (IA) na contemporaneidade, analisando de forma rigorosa as implicações éticas, técnicas e políticas que as tecnologias algorítmicas produzem nos processos de subjetivação humana e no exercício profissional. O debate foi mediado pela conselheira do CRP-RJ Janaina Sant'Anna Barros da Silva (CRP 05/17875), especialista em Psicologia do tráfego e coordenadora da ABRAPSIT/Rio, contando com as exposições da psicóloga e docente Isabela Ferreira Rocha Nunes (CRP 05/63279), do professor universitário Arthur Barbosa da Costa (CRP 05/63835) e da conselheira presidenta da Comissão de Orientação e Fiscalização (COF) do CRP-RJ, Erika Barbosa de Araújo (CRP 05/50040).
A professora Isabela Ferreira Rocha Nunes iniciou sua explanação conceituando a Inteligência Artificial como um modelo computacional alimentado por algoritmos e cálculos probabilísticos que tentam simular comportamentos inteligentes de forma probabilística. Ela advertiu que, embora as ferramentas de linguagem natural criem o efeito de uma interlocução tipicamente humana, elas são orientadas por lógicas mercadológicas. Isabela detalhou como a tecnologia vem se inserindo nas práticas de saúde, exemplificando com serviços de agendamento automático, assistentes digitais e aplicativos de transcrição de áudio.
A palestrante alertou para o fenômeno da complacência algorítmica, característica estrutural de sistemas projetados comercialmente para agradar, elogiar e confirmar reiteradamente o ponto de vista do usuário. Por essa razão, e pela total impossibilidade de emulação de afeto consciente ou sentimentos genuinamente humanos, a IA é de todo incapaz de substituir o processo de psicoterapia, o qual repousa estritamente sobre o vínculo e a relação interpessoal humana. Isabela defendeu a urgência da literacia em IA (letramento tecnológico) para que a categoria compreenda as dinâmicas de captação, processamento e armazenamento de dados sensíveis na nuvem. Ela alertou que o uso de aplicativos corporativos de transcrição de sessões exige a desativação da criptografia de ponta a ponta, transferindo o sigilo profissional de dados de pacientes para servidores privados estrangeiros, o que fere diretamente os princípios do Código de Ética e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que estipula sanções pecuniárias severas de até R$ 50 milhões em caso de vazamento. Isabela relembrou que a responsabilidade ética pela guarda do sigilo profissional é inalienável e personalíssima do psicólogo, cabendo a este recusar peremptoriamente a terceirização do pensamento clínico para máquinas.
O pesquisador Arthur Barbosa da Costa abordou a relação entre tecnologia e subjetividade refutando o conceito linear de "impacto" tecnológico na sociedade, argumentando que os seres humanos e os artefatos técnicos se coproduzem de maneira mútua. Arthur demonstrou a não-neutralidade das ferramentas algorítmicas, assinalando que os sistemas de IA operam identificando e aprendendo padrões estatísticos históricos a partir de bases de dados sociais preexistentes. Consequentemente, caso a sociedade de treinamento seja racista e misógina, os algoritmos reatualizarão e reproduzirão de forma invisível essas mesmas violências e discriminações estruturais.
O professor citou como evidências os recorrentes e graves erros em sistemas de reconhecimento facial que incidem desproporcionalmente sobre pessoas negras, gerando prisões indevidas. Arthur também trouxe ao debate sua pesquisa acadêmica sobre assistentes virtuais baseada no relatório da UNESCO "I'd Blush If I Could" (2019), demonstrando como assistentes programadas com nomes e vozes feminizadas respondiam de maneira condescendente a assédios sexuais verbais desferidos por usuários, evidenciando a incorporação de preceitos de misoginia no design de tecnologia de consumo. Ele apontou um dado preocupante: o ChatGPT consolidou-se informalmente como o maior terapeuta do mundo em termos de volume, haja vista que quase metade de seu contingente global de usuários relatou recorrer à ferramenta para obter conselhos subjetivos e imitações de psicoterapia. Frente a esse avanço neoliberal impulsionado pela gratuidade e pela disponibilidade ininterrupta do serviço, Arthur asseverou que a Psicologia deve se apropriar de maneira crítica da tecnologia para intervir politicamente e construir regulações coletivas capazes de conter abusos corporativos, rompendo com uma postura fatalista.
A presidente da COF, Erika Barbosa de Araújo, conduziu sua fala sob a ótica da ética e da fiscalização profissional das práticas em ambiente virtual. Erika enfatizou que a IA configura um mero instrumento e aplicativo tecnológico que não se sobrepõe à autonomia técnica do psicólogo. Ela defendeu que não é necessário criar resoluções específicas para cada inovação que surja, dado que os preceitos fundamentais estabelecidos pelo Código de Ética Profissional (Resolução CFP nº 10/2005) e as normativas vigentes sobre registro documental já oferecem pleno amparo regulatório para responsabilizar diretamente o profissional pelo uso inadequado de qualquer recurso tecnológico.
Erika alertou severamente a categoria contra o risco de práticas iatrogênicas decorrentes de mediações robóticas e contra o Efeito Elisa, caracterizado pelo apego e antropomorfização excessiva de ferramentas digitais, o que pode distanciar sujeitos de vínculos humanos autênticos e de cuidados clínicos adequados em momentos de crise aguda. A conselheira denunciou a severa precarização do trabalho que atinge sobretudo profissionais recém-formados, absorvidos por planos de saúde e plataformas de atendimento em massa. Sob pressão de demandas exaustivas de desempenho que exigem o atendimento de 15 a 20 pacientes por dia, diversos profissionais têm terceirizado a confecção de prontuários, laudos e documentos técnicos para Inteligências Artificiais. Erika advertiu que tal conduta viola o Código de Ética, constituindo infração grave passível de instauração de processos ético-disciplinares, uma vez que a precarização ou a exaustão laboral não são atenuantes legais aceitáveis perante a violação do sigilo ou a emissão de laudos sem avaliação profissional rigorosa.
Assista ao conteúdo na íntegra acessando https://www.youtube.com/live/v_Wm2s76rDk?si=bCLIWIrq0_TaH-DO
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